segunda-feira, 4 de maio de 2009

Santo Jornalista

Existe sim algo de muito interessante na mente dos jornalistas. E dessa vez não vou falar sobre a tão proclamada curiosidade alarmante, ou sobre um faro meticulosamente especial, aquele senso apurado em premeditar os acontecimentos que palpitam pela bola de cristal estacionada sobre o computador. Jornalistas sabem de tudo antes da hora, matam celebridades que estão em coma e transformam o melhor acontecimento da última semana no maior festival de emoções de todos os tempos. É preciso encher quarenta páginas todos os dias e você não tem noção de como é isso.

Em todo caso, essas peripécias não são nada. O que realmente me interessa é o Ego dessa espécie pouco recatada. Uma redação de jornal é cheia de masturbações mentais de grandes relevâncias temporárias. Eu entendo, é claro, porque é consideravelmente complicado viver de acontecimentos passageiros. A história de hoje já não é a mesma de amanhã e isso pode significar duas coisas que se esbarram na linha tênue do nosso pensamento: adrenalina e frustração. Escrever sobre assuntos diferentes todos os dias faz de nós, Jornalistas, grandes libertinos do Tempo. Não há rotina, e isso é lindo, mas existe lá uma política que rege o nosso cotidiano deslumbrante. Talvez seja uma mistura de medo e apreensão, é preciso saber tudo sobre tudo e agora. “A sua matéria tem que estar na minha mesa às 18h”, diz a editora encravada em seu sorriso jurisprudente. Você ainda não sabe nada sobre o tema proposto, são três horas da tarde e seu pensamento cisma em te lembrar que você está apaixonado. Veja bem, eu ando de skate há mais de oito anos e nunca senti a adrenalina que corre por meu corpo quando estou dentro de uma redação. É a Babilônia.

Estou divagando agora e até já comecei a tecer o meu estado emocional. Jornalistas são carentes, escreva isso. Mas não há nada demais em querer ver o reconhecimento em seu trabalho. Os nossos erros nunca passam despercebidos pelas mentes vis que folheiam o jornal buscando uma vírgula traiçoeira. Por outro lado, os grandes acertos que descrevemos são recebidos sem aplausos flamejantes pela imensa maioria de pagantes que bebem as notícias do dia junto ao café da manhã. Para eles, esse é o nosso dever e ponto. Talvez estejam certos, mas eu sempre estive entre os poucos pedestres que agradeciam o padeiro pelo pão nosso de cada dia. Existem dedicação e apreensão dentro de uma padaria e alguém deve ser reconhecido pelo serviço prestado. Você não fabrica o seu próprio pão, não é?

Eu também sou um culpado, de qualquer maneira. Esses dias folheei um jornalzinho do meu bairro e li uma coluna sensacional. Era assinada por uma mulher morena de trinta e poucos anos (eu não lembro seu nome). Ela falava sobre como gostava de curtir o silêncio de sua cidade quando chegava o Carnaval e disse que os verdadeiros amigos são aqueles que compartilham com os outros a ausência de palavras. Quer dizer, as suas amizades mais sinceras são aquelas que funcionam bem quando não há nada mais que o silêncio. Esse pensamento me acompanhou durante longas semanas e, ainda assim, não agradeci a autora. Não vou colocar a culpa na minha rotina ou na educação que recebi dos meus pais. A culpa é do governo, é claro.

Aliás, é disso mesmo que queria falar. Jornalista que não sabe nada sobre política e se contenta em dizer que “Brasília só tem merda” é um filho da puta fodido. Não existe nada pior do que a ignorância política. “A capital federal só tem merda? Então me fala porque que você ainda não se mudou para lá?”, essa é a resposta chave para o seu companheiro de redação. Escreva isso também. E não tenha dúvidas de que este é um comportamento recorrente entre os assalariados que alimentam a sua sabedoria. O Brasil está cheio desses jornalistas inescrupulosos que ainda sonham em transformar alguma coisa na estrutura Capitalista do universo. Está para nascer um revolucionário que não lê jornal. (E o nome dele é Power Ranger Vermelho, disse agora a minha bola de cristal azul).

No final de 2005, eu assumi a moderação da comunidade de Jornalismo do Orkut e passei a dormir menos. Devo ter recebido mais de 2mil emails nos últimos quatro anos pedindo ajuda sobre a escolha da profissão. Isso quando não pediam o meu telefone de contato, “Não vou tomar muito o seu tempo”, diziam. Por muitas vezes, passei o telefone dos meus amigos. Isso me divertia bastante no final do dia. A verdade é que não existe nada pior do que estudantes de jornalismo. Nada. Todo mundo quer mostrar que lê mais que o outro, que escreve palavras mais complicadas e que as suas cordas vocais carregam o mesmo timbre rouco do Willian Bonner. Foda-se o Bonner. Com o tempo essas mesmas almas castigadas pela ignorância irão perceber o quão ignorantes eram e irão descrever sorrisos impunes nos espelhos do mundo. E depois vão sentar e escrever longos textos de sabedoria fajuta. Exatamente como este.

*Bernardo Biagioni é estudante de jornalismo, sua voz lembra a de Zeca Camargo e ele nunca flertou com a Fátima Bernardes. Nunca.

2 comentários:

  1. Sabe aquele sorriso de canto de boca que mistura um erguer de sobrancelhas e tudo mais?
    Eu acabei de dar um desse.
    E é por isso que eu ainda perco meu tempo lendo essa sua sabedoria fajuta.
    { :

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  2. haha, voce é demais, sério. eu sei que já disse isso mais de uma vez por orkut, maaaaas. enfim. são poucas as pessoas que eu elogio, então tenho que aproveitar.

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