quinta-feira, 7 de maio de 2009

Conversando sobre Cachorros

Eu não tinha medo de cachorros até presenciar uma cena aterrorizante. Era alguma estação quente do ano, consigo lembrar bem do meu cérebro fritando no terraço da casa da minha avó, em Conselheiro Lafaiete. Por aquela época eu costumava tomar cinco ou seis garrafas de Coca Cola por dia, ficava me sentindo como um balão inflável prestes a declarar decolagem de emergência. Não confunda isso com gordura. Você pode estar imaginando um molequinho bastante arredondado pelas bolachas de chocolate sorrateiramente roubadas do armazém da esquina. Não nego que tive lá os meus furtos na infância, isso é perfeitamente natural dentro das cabeças psicoativas de crianças megalomaníacas e apaixonadas por qualquer espírito selvagem que possa lhe aflorar a vida adormecida por uma sexta-feira de chuva.

Mas naquele dia em especial, não havia nenhuma gota torrencial apedrejando o teto enferrujado do terraço onde adormecia o meu cachorro. Era um Schnauzer de uns cinco anos e pouco, corria de um lado para o outro para ostentar a vivacidade de sua recém conquistada adolescência. Seus hormônios afloravam por seu corpo e suas pernas descreviam passos calculados impondo um peito digno desses pombos brancos que pipocam pelas praças históricas do mundo. Ele se achava ‘o cara’, se me permite modernizar aquele jeito soturno de caminhar pelos passeios públicos.

Do meu lado estava Marquinhos, um desses primos bastardos que aparecem em algum galho de sua árvore genealógica como um intruso babaca e sorridente. Tenho certo pânico de linhas cronológicas, elas te oferecem a chance de conhecer seus ancestrais mais malignos e depravantes. Quando falam em “ancestrais” eu costumo pensar em grandes gorilas raivosos e apetitosos por veias grossas e cheias de sangue. Não é um pensamento interessante e não gostaria de dividir isso com ninguém. Mas talvez alguém se sinta aliviado em ver que existem outras pessoas convivendo com isso todos os dias. Fique tranqüilo, jovem. “Você está em boas mãos”.

Marquinhos é um babaca e tenta disfarçar o seu jeito estúpido conversando consigo mesmo enquanto se olha no espelho. Usa um vaso de perfume por dia e escova os dentes antes e depois de cada refeição. Nunca entendi isso e nem você deve procurar entender. Também gostava de cachorros e sempre que aparecia na casa da minha avó ficava insistindo para ver o Meu animal.

Tão logo abri a porta do terraço, o cachorro veio correndo e pulou direto nas calças largas de Marquinhos. Pelo grito do meu primo, julguei que o bichano tinha conseguido atracar todos os dentes nas possíveis duas bolas de sua genitália. Não sei se entrei em pânico também. Sei que falei alguma coisa do tipo: “Está doendo, cara?”, enquanto tentava neutralizar os danos puxando uma grande vassoura para fazer medo no animal. Eu nunca bateria nele. Bateria no meu primo, é claro, se fosse ele o grande culpado daquela reação mútua de companheirismo. Até onde eu sei, em determinados cultos sexuais do Oriente, considera-se de grande valor as mordidas sem cerimônias deferidas contra o companheiro de cama. Em países mórbidos, não é difícil ver homens andando pelas ruas com largos buracos espalhados pelo pescoço. Isso é sinal de machismo, acasalamento, força motriz e outros verbetes singulares.

Meu primo ficou bem depois. Teve que costurar os bagos de volta ao corpo e seus espermas continuam empolgados com a idéia de foder alguém. Até mesmo um cachorro, quem sabe? Quem saiu lesado daquele dia foi eu, por mais estranho que possa parecer. Hoje, todas as vezes que cruzo com um cachorro na rua, levo minha mão à virilha para evitar qualquer possível dano. Em todo caso, sei bem que isso não adianta muita coisa. Esses dias um outro primo foi brincar com um Pit Bull e acabou cego. Hoje ele não agüenta mais ver cachorros. Rá rá rá. Coitadinho.

Um comentário:

  1. Uma vez roubei um estilingue num mercadinho em Foz do Iguaçu e também tenho um primo bastardo sorridente. ;)

    ResponderExcluir