quinta-feira, 12 de março de 2009

O Sol também se levanta - Hemingway

Considerado pela crítica norte-americana como o primeiro grande romance de Ernest Hemingway (mesmo ele tendo publicado, um ano antes, a novela The Torrents of Spring), O Sol também se levanta, de 1926, é um retrato fiel daquilo que ficou conhecido como Geração Perdida (Lost Generation). O termo foi popularizado pelo próprio Hemingway, que buscava caracterizar uma parcela da população americana que se mostrava descrente quanto ao seu futuro logo após a Primeira Guerra Mundial.

A trama é narrada e vivenciada por Jake Barnes, um veterano de guerra que voltara dos campos de batalha impotente, em todos os sentidos. Como um anti-herói americano, o personagem vive exilado em Paris trabalhando como jornalista. Seu círculo de amizades compreende estereótipos complexos e obsoletos. É apaixonado por Lady Brett Ashley, uma mulher aparentemente distinta, mas que mantém uma série de relacionamentos pouco duradouros com os homens. Embora compartilhem o mesmo amor, Jake e Brett não vêem um futuro promissor em função da desfuncionalidade sexual do protagonista.

Logo no primeiro capítulo do livro, Jake apresenta um de seus amigos mais íntimos, o ex-boxeador e escritor Robert Cohn, de quem desconfia todo o tempo sob a justificativa: “Nunca se deve confiar em pessoas francas e simples, principalmente quando suas histórias são coerentes”. Os verdadeiros relacionamento de Jake, no entanto, são mantidos com Bill Gordon (também escritor e veterano de guerra) e Mike Campbell, escocês, noivo de Brett, e ex-milionário.

Apaixonado por touradas, o protagonista convida os demais personagens para a Fiesta, um festival de touros que acontece anualmente na cidade de Pamplona, na Espanha. Durante a semana em que deixam Paris, Jake, Bill, Brett, Mike e Cohn mergulham com tudo na descrença marcante da Geração Perdida. De bar em bar, os personagens passam todo o dia bebendo vinho, cerveja, chope e absinto. O assunto nas mesas raramente vai além das frivolidades do mundo.

O título O Sol também se levanta, a princípio, reflete bem o comportamento dos personagens: mesmo depois de todas as bebedeiras desenfreadas, todos eles sempre estão de pé quando o sol se anuncia. Porém, o nome foi dado ao livro tendo como base o versículo 5, do primeiro capítulo de Eclesiastes na Bíblia, expresso nas seguintes palavras: “O sol nasce, e o sol se põe, e corre de volta ao seu lugar donde nasce.” A apropriação de Hemingway não faz muito sentido até que se leia a passagem anterior: “Uma geração vai-se, e outra vem, mas a terra permanece para sempre”. Isso reforça a crença de que o autor buscava caracterizar e retratar o sentimento comum que vigorava unicamente naquele determinado período de tempo, sabendo de sua efemeridade e volatilidade.


Contexto Histórico

Pós guerra:
Durante o período entre guerras (1918 a 1939), era possível encontrar grandes nomes da literatura norte-americana expatriados morando em diferentes pontos da Europa. Só em Paris, além de Hemingway, vivia Henry Miller, F. Scott Fitzgerald e T. S. Eliot. Também não era difícil esbarrar com jovens artistas europeus nos bares da cidade, a começar por Miró, Matisse e Renoir.

Toda a efervescência cultural da Belle Èpoque, que acabou com o começo da Primeira Guerra, deu lugar a uma vastidão de poetas, escritores e artistas marginalizados, sobretudo pela descrença iminente com a perda do nacionalismo vigente durante o conflito mundial. O resultado foi a tal Geração Perdida e a proliferação da figura do anti-herói, definição perfeita para o artista bêbado que angariava dinheiro vendendo suas náuseas e insatisfações para seus semelhantes.

O Sol também se levanta, assim como os outros romances malevolentes da época, viria influenciar diretamente na produção cultural norte-americana das décadas seguintes. A Geração Beat dos anos 40 e 50, protagonizada por Jack Kerouac, Willian Burroughs e Allen Ginsberg, seria uma nítida extensão do sentimento avassalador da Geração Perdida. Também não é difícil encontrar semelhanças na escrita do jornalista Hunter S. Thompson, tão fã de Hemingway que se matou exatamente como ele: um belo tiro na cabeça.

Lei Seca Americana:
Em contraposto à Lei Seca que estava em vigor nos Estados Unidos desde 1920, os personagens de O Sol também se levanta não ficam sequer um dia sem uma garrafa de cerveja. No capítulo XI, Jake ainda satiriza a situação da constituição americana: “Bebida lá é o que não falta, se se tem com que pagar”. O álcool parece tentar suprir a carência mental dos personagens, qualquer infortúnio surgido no cotidiano era rapidamente sanado por um copo cheio de vinho. A trama acaba, involuntariamente, girando em torno dos bares e restaurantes freqüentados por Jake.

Feito um diário de bordo, o protagonista descreve sua rotina alcoólica sem esquecer o nome de nem um único boteco. Ou seja: se um dia você decidir conhecer a capital francesa, não se esqueça de levar o livro para completar o guia descrito por Hemingway.

Personagens

Jake Barnes:
Retrato perfeito da figura do anti-herói: o personagem não possui nenhuma vocação heróica, mesmo tendo lutado por seu país na Primeira Guerra Mundial. Ferido durante o conflito, Jake se mostra conformado com sua impotência sexual como se não pudesse, de nenhuma forma, gozar dos amores do mundo. Isso comprova que sua impotência vai muito além de sua expressão física. Jake é um descrente, um ícone honroso da Geração Perdida e todos os seus dramas são passíveis de resolução quando tem um copo cheio de álcool na mesa.

Robert Cohn:
O paradoxo de Jake. Cohn é um dos personagens do livro que não se encaixa na Geração Perdida. Não bebe demais, não esteve na guerra e tem uma ânsia imensa pela vida. Quer ir para a América do Sul, mas não consegue companhia. É tremendamente apaixonado por Brett, mas não é correspondido. Robert Cohn é um ultra-romântico idiota perdido no meio de pessoas de aparências desinteressantes.

Mike Campbell:
Ex-milionário que mantém a vida de rico. Continua bebendo e viajando tanto quanto antes. Apesar de ser noivo e amar Brett, Mike se conforma com a postura de prostituta da amada. Mantém uma repulsa explícita por Robert Cohn, não por ciúmes, mas por natureza.

Lady Ashley ou Brett:
Apaixonante e viva. Ama Jake Barnes, mas prefere não tentar manter um relacionamento com um impotente. Em alguns trechos, inclusive, se apresenta como uma prostituta, mesmo não recebendo por seus ‘serviços’.

Bill Gordon:
Uma extensão do personagem Jake Barnes. Bill Gordon se torna cúmplice dos pensamentos do amigo desde o momento em que entra na história. Segundo o site de críticas norte-americano Cliffs Notes: “Bill foi colocado na trama para escutar os desabafos do protagonista. Apesar de narrar todos os acontecimentos, em determinados momentos, Jake não se sente confortável para ‘se abrir’ com o leitor. Nesses casos, Bill se torna o ouvinte ideal, que absorve tudo sem refutar nada”.

Ver também:

The Sun Also Rises (1957)
O livro de Hemingway foi levado ao cinema pelo diretor Henry King. As filmagens foram feitas na França e no México, em substituição às cenas que se passam na Espanha.
Clique aqui para ver um trecho.
E aqui para ler mais sobre o filme.

Para comprar:
Americanas: R$:34,90
Submarino: R$35,90

6 comentários:

  1. Nunca fiquei tão triste ao ler um livro...

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  2. Realmente. ótimo post.
    Esclareceu um pouco mais a história para mim.
    Obrigado.

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  3. Livro fantástico e post excelente. Obrigado

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  4. vou dar uma lida nesse livro, acabei de comprar, espero que tenha valido a pena

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