terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Uma Espécie em Extinção

Fico pensando em como o jornalista Hunter Thompson costuma ser lembrado nas faculdades de Comunicação do país - Um viajante alucinado que fracassou em suas investidas em gozar do tão proclamado "Sonho Americano", o tal bem-estar-social amplamente difundido nos gadgets norte-americanos que eram exportados pelo mundo. Teve então de mergulhar nas drogas para encontrar a Terra Prometida, queria as respostas que não estavam nas igrejas protestantes que continuavam se multiplicando pelo país. Ele estava lá nos anos 60, a era hippie fervilhando de energia e poder, os "smiles" correndo pelas ruas para representar um falso positivismo criado pelo governo. Os Estados Unidos estavam em guerra contra o Vietnã e qualquer manifestação contrária às ações armadas não eram bem vindas - o território americano, então, cedia espaço para as torturas e ameaças verbais, uma versão estrangeira dos porões da Ditadura Militar que avassalava os ideais estudantis do Brasil. Ao contrário do que se vê dentro das salas de aula, Hunter não deveria ser lembrado somente por sua escrita ácida e pela criação do Gonzo Jornalismo - Sua maior conquista, na verdade, pode ter sido sobreviver àqueles anos com uma máquina de escrever em pleno funcionamento.

Uma espécie em extinção é dividido em duas datas: 1969 e 1972. A história gira em torno de Carl Lazlo (Peter Boyle), pseudônimo utilizado para representar Oscar Zeta Acosta, o advogado mexicano que acompanhava as viagens de Hunter Thompson (Bill Murray). Acosta era ativista do Movimento Chicano, ou El Movimento, que pregava a discriminação dos imigrantes do México nos Estados Unidos. A luta durou exatos dez anos, tendo início em 1965. O advogado aparece em quase todas as obras de Thompson, à começar por seu mais famoso livro, o Medo e Delírio em Las Vegas, de 1971. A história foi adaptada para o cinema em 1994, por Terry Giglian, trazendo Benicio del Toro no papel de Oscar Zeta Acosta e Johnny Depp, representando Hunter.

Na primeira parte de Uma espécie em extinção, Hunter Thompson acompanha o trabalho diário de Acosta para uma matéria de capa encomendada pela Rolling Stone (No filme, a revista é apresentada como "Blast Magazine"). O advogado ainda não está envolvido com El Movimento e seu trabalho consiste em impedir que jovens delinquentes caiam na cadeia. Em um segundo momento, Hunter abandona a pauta de cobrir a final do Campeonato de Futebol Americano (Superbowl) para acompanhar as últimas atividades de Acosta (o Movimento Chicano) . O jornalista acaba desistindo de se filiar ao movimento revolucionário e passa a fazer parte da campanha presidencial de Richard Nixon, acompanhando suas viagens nos aviões dedicados à imprensa. Entre uma decolagem e outra, Hunter dá a sorte de esbarrar com o futuro presidente no banheiro, aproveitando para uma conversa memorável, publicada também em seu livro A grande caçada aos tubarões, de 1972.

Embora seja comercializado como uma Comédia, Uma espécie em extinção reflete todo o drama de um país que transpirava Liberdade sem ser livre. As gargalhadas devem ficar restritas aos jornalistas que julgam Hunter Thompson por suas andanças alucinadas em Las Vegas. Aos que conhecem a fundo os seus anseios e pensamentos - que motivaram seu suicídio, em 2005 - o filme deve cair como mais uma peça para o entendimento da cultura norte-americana daqueles anos. De quebra, ainda dá para se satisfazer com uma trilha sonora impecável que vai desde Neil Young até Creedance, passando ainda por Bill Murray cantando Lucy in the sky with diamonds. Bem sugestivo, não?


Assista ao trailer

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Submarino: R$22,90
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