quinta-feira, 7 de maio de 2009

Conversando sobre Cachorros

Eu não tinha medo de cachorros até presenciar uma cena aterrorizante. Era alguma estação quente do ano, consigo lembrar bem do meu cérebro fritando no terraço da casa da minha avó, em Conselheiro Lafaiete. Por aquela época eu costumava tomar cinco ou seis garrafas de Coca Cola por dia, ficava me sentindo como um balão inflável prestes a declarar decolagem de emergência. Não confunda isso com gordura. Você pode estar imaginando um molequinho bastante arredondado pelas bolachas de chocolate sorrateiramente roubadas do armazém da esquina. Não nego que tive lá os meus furtos na infância, isso é perfeitamente natural dentro das cabeças psicoativas de crianças megalomaníacas e apaixonadas por qualquer espírito selvagem que possa lhe aflorar a vida adormecida por uma sexta-feira de chuva.

Mas naquele dia em especial, não havia nenhuma gota torrencial apedrejando o teto enferrujado do terraço onde adormecia o meu cachorro. Era um Schnauzer de uns cinco anos e pouco, corria de um lado para o outro para ostentar a vivacidade de sua recém conquistada adolescência. Seus hormônios afloravam por seu corpo e suas pernas descreviam passos calculados impondo um peito digno desses pombos brancos que pipocam pelas praças históricas do mundo. Ele se achava ‘o cara’, se me permite modernizar aquele jeito soturno de caminhar pelos passeios públicos.

Do meu lado estava Marquinhos, um desses primos bastardos que aparecem em algum galho de sua árvore genealógica como um intruso babaca e sorridente. Tenho certo pânico de linhas cronológicas, elas te oferecem a chance de conhecer seus ancestrais mais malignos e depravantes. Quando falam em “ancestrais” eu costumo pensar em grandes gorilas raivosos e apetitosos por veias grossas e cheias de sangue. Não é um pensamento interessante e não gostaria de dividir isso com ninguém. Mas talvez alguém se sinta aliviado em ver que existem outras pessoas convivendo com isso todos os dias. Fique tranqüilo, jovem. “Você está em boas mãos”.

Marquinhos é um babaca e tenta disfarçar o seu jeito estúpido conversando consigo mesmo enquanto se olha no espelho. Usa um vaso de perfume por dia e escova os dentes antes e depois de cada refeição. Nunca entendi isso e nem você deve procurar entender. Também gostava de cachorros e sempre que aparecia na casa da minha avó ficava insistindo para ver o Meu animal.

Tão logo abri a porta do terraço, o cachorro veio correndo e pulou direto nas calças largas de Marquinhos. Pelo grito do meu primo, julguei que o bichano tinha conseguido atracar todos os dentes nas possíveis duas bolas de sua genitália. Não sei se entrei em pânico também. Sei que falei alguma coisa do tipo: “Está doendo, cara?”, enquanto tentava neutralizar os danos puxando uma grande vassoura para fazer medo no animal. Eu nunca bateria nele. Bateria no meu primo, é claro, se fosse ele o grande culpado daquela reação mútua de companheirismo. Até onde eu sei, em determinados cultos sexuais do Oriente, considera-se de grande valor as mordidas sem cerimônias deferidas contra o companheiro de cama. Em países mórbidos, não é difícil ver homens andando pelas ruas com largos buracos espalhados pelo pescoço. Isso é sinal de machismo, acasalamento, força motriz e outros verbetes singulares.

Meu primo ficou bem depois. Teve que costurar os bagos de volta ao corpo e seus espermas continuam empolgados com a idéia de foder alguém. Até mesmo um cachorro, quem sabe? Quem saiu lesado daquele dia foi eu, por mais estranho que possa parecer. Hoje, todas as vezes que cruzo com um cachorro na rua, levo minha mão à virilha para evitar qualquer possível dano. Em todo caso, sei bem que isso não adianta muita coisa. Esses dias um outro primo foi brincar com um Pit Bull e acabou cego. Hoje ele não agüenta mais ver cachorros. Rá rá rá. Coitadinho.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Gripe Suína

Hoje eu senti medo de morrer, confesso. Mas não foi nada contra as solenes despedidas tanto almejadas pelos cemitérios não-filantrópicos dos grandes centros comerciais. Meu medo vinha instaurado sobre a sensação mórbida de que eu poderia ser abandonado a força dos braços seguros que resguardam o meu caminhar.

A verdade é que eu dormia seguro até começar os gritos estridentes do despertador largado no criado ao lado da cama. Pensei em ligar para o trabalho e dizer que não estava me sentindo bem. "Como você não está se sentindo bem", alguém iria dizer do outro lado. Eu teria então que falar alguma coisa sobre intestino ou dores abdominais latentes que desfaziam minha pupilas dilatadas em cachoeiras viscosas de água. Ninguém cairia nessa, é claro. Não demorariam a pensar lá do outro lado que o meu sono abusivo era mais um nítido sintoma da Gripe Suína que desacorda o hipocondrismo do meu vizinho. E logo mandariam alguma viatura do posto médico para arrancar meu corpo dos lençois enquanto algum gorila de três metros me envolveria em uma camisa de força amarelada pelo tempo. Bam! Pronto. Em alguns minutos estaria correndo meus dedos pelas grades cinzentas de uma prisão municipal esquecida pelo descaso público. Me colocariam em quarentena por quarenta longos meses de notícias sangrentas e sem razões elucidadas.

Não fique surpreso, em todo caso. Isso já vem acontecendo há alguns dias nas redondezas suspeitas de contaminação. O vírus que foi deflagrado no México tem descrito itinerantes ponderados e eficazes, tudo conspira para que os nossos pulmões sejam os seus próximos calorentos abrigos. Respire fundo e comece a estocar alimentos. Ninguém quer dividir o quarteirão com um doente condenado aos infortúnos pesarosos da vida após a morte. Ou a morte após a vida. E também já não lhe adiantam mais as preces desesperadas. Todo mundo sabe que Jesus Cristo passa as férias de Abril viajando pelos cartões ensolarados de Cancun. A Tequila é o vinho do novo tempo, e brindemos. Já começo a ficar cansado de tudo isso e não quero mais tanta matança nos meus jornais. Estou farto desta triste pandemia de notícias desesperadas e sem entusiasmo. A Gripe Suína está carregando consigo a manchete inerte que será nossa última verdade: Todos serão punidos por seus pecados malediscentes.

Estamos diante da Babilônia, meu caro amigo. Evite as carnes suínas e alimente-se bem do seu próprio corpo. E, antes de tudo, não conte para ninguém que você andou espirrando.

Santo Jornalista

Existe sim algo de muito interessante na mente dos jornalistas. E dessa vez não vou falar sobre a tão proclamada curiosidade alarmante, ou sobre um faro meticulosamente especial, aquele senso apurado em premeditar os acontecimentos que palpitam pela bola de cristal estacionada sobre o computador. Jornalistas sabem de tudo antes da hora, matam celebridades que estão em coma e transformam o melhor acontecimento da última semana no maior festival de emoções de todos os tempos. É preciso encher quarenta páginas todos os dias e você não tem noção de como é isso.

Em todo caso, essas peripécias não são nada. O que realmente me interessa é o Ego dessa espécie pouco recatada. Uma redação de jornal é cheia de masturbações mentais de grandes relevâncias temporárias. Eu entendo, é claro, porque é consideravelmente complicado viver de acontecimentos passageiros. A história de hoje já não é a mesma de amanhã e isso pode significar duas coisas que se esbarram na linha tênue do nosso pensamento: adrenalina e frustração. Escrever sobre assuntos diferentes todos os dias faz de nós, Jornalistas, grandes libertinos do Tempo. Não há rotina, e isso é lindo, mas existe lá uma política que rege o nosso cotidiano deslumbrante. Talvez seja uma mistura de medo e apreensão, é preciso saber tudo sobre tudo e agora. “A sua matéria tem que estar na minha mesa às 18h”, diz a editora encravada em seu sorriso jurisprudente. Você ainda não sabe nada sobre o tema proposto, são três horas da tarde e seu pensamento cisma em te lembrar que você está apaixonado. Veja bem, eu ando de skate há mais de oito anos e nunca senti a adrenalina que corre por meu corpo quando estou dentro de uma redação. É a Babilônia.

Estou divagando agora e até já comecei a tecer o meu estado emocional. Jornalistas são carentes, escreva isso. Mas não há nada demais em querer ver o reconhecimento em seu trabalho. Os nossos erros nunca passam despercebidos pelas mentes vis que folheiam o jornal buscando uma vírgula traiçoeira. Por outro lado, os grandes acertos que descrevemos são recebidos sem aplausos flamejantes pela imensa maioria de pagantes que bebem as notícias do dia junto ao café da manhã. Para eles, esse é o nosso dever e ponto. Talvez estejam certos, mas eu sempre estive entre os poucos pedestres que agradeciam o padeiro pelo pão nosso de cada dia. Existem dedicação e apreensão dentro de uma padaria e alguém deve ser reconhecido pelo serviço prestado. Você não fabrica o seu próprio pão, não é?

Eu também sou um culpado, de qualquer maneira. Esses dias folheei um jornalzinho do meu bairro e li uma coluna sensacional. Era assinada por uma mulher morena de trinta e poucos anos (eu não lembro seu nome). Ela falava sobre como gostava de curtir o silêncio de sua cidade quando chegava o Carnaval e disse que os verdadeiros amigos são aqueles que compartilham com os outros a ausência de palavras. Quer dizer, as suas amizades mais sinceras são aquelas que funcionam bem quando não há nada mais que o silêncio. Esse pensamento me acompanhou durante longas semanas e, ainda assim, não agradeci a autora. Não vou colocar a culpa na minha rotina ou na educação que recebi dos meus pais. A culpa é do governo, é claro.

Aliás, é disso mesmo que queria falar. Jornalista que não sabe nada sobre política e se contenta em dizer que “Brasília só tem merda” é um filho da puta fodido. Não existe nada pior do que a ignorância política. “A capital federal só tem merda? Então me fala porque que você ainda não se mudou para lá?”, essa é a resposta chave para o seu companheiro de redação. Escreva isso também. E não tenha dúvidas de que este é um comportamento recorrente entre os assalariados que alimentam a sua sabedoria. O Brasil está cheio desses jornalistas inescrupulosos que ainda sonham em transformar alguma coisa na estrutura Capitalista do universo. Está para nascer um revolucionário que não lê jornal. (E o nome dele é Power Ranger Vermelho, disse agora a minha bola de cristal azul).

No final de 2005, eu assumi a moderação da comunidade de Jornalismo do Orkut e passei a dormir menos. Devo ter recebido mais de 2mil emails nos últimos quatro anos pedindo ajuda sobre a escolha da profissão. Isso quando não pediam o meu telefone de contato, “Não vou tomar muito o seu tempo”, diziam. Por muitas vezes, passei o telefone dos meus amigos. Isso me divertia bastante no final do dia. A verdade é que não existe nada pior do que estudantes de jornalismo. Nada. Todo mundo quer mostrar que lê mais que o outro, que escreve palavras mais complicadas e que as suas cordas vocais carregam o mesmo timbre rouco do Willian Bonner. Foda-se o Bonner. Com o tempo essas mesmas almas castigadas pela ignorância irão perceber o quão ignorantes eram e irão descrever sorrisos impunes nos espelhos do mundo. E depois vão sentar e escrever longos textos de sabedoria fajuta. Exatamente como este.

*Bernardo Biagioni é estudante de jornalismo, sua voz lembra a de Zeca Camargo e ele nunca flertou com a Fátima Bernardes. Nunca.

Tempos Estranhos

Agora sim os tempos estão estranhos. É hora de começar a dormir em pé, meu nobre amigo. Os desejos insalubres do apocalípse estão vagando pelas esquinas dessas grandes metrópoles inescrupulosas. Morrem crianças vitimas de uma gripe suína que não se contraria comendo carne. É a sua carne que eles querem, veja bem. Mosquitos horrendos correm pelos gotejos de chuva discrepantes que descem do céu como tormentas surreais. Todo mundo quer sugar o seu sangue viscoso e vil, é hora de sorver o vinho sacro da Bíblia cristã. Mantenha-se armado, noite e dia. Separe com cuidado as balas certas e coloque-as uma a uma na ponta da agulha, os grunhidos desesperados da Morte podem avançar pela porta do seu quarto assim que você cerrar seus olhos lacrimejados. É tempo de paranóia, filme de suspense e confusão entre pedestres. Estamos em guerra e não há Raul para lhe aconselhar tentar uma outra vez. A Paz e Amor foram enterrados esquartejados dos pés à cabeça. Sobrevive quem anda na linha, não pergunta demais e gargalha das piadas resenhadas no jornal popularesco. Esqueça de política, religião e qualquer outra brincadeira inverossímel que possa lhe valer a cabeça. A guilhotina do governo está estirada sobre a praça pública e ninguém viu. Sorria, meu caro. Mas sorria com a descerteza absoluta de que seus dentes logo serão arrancados a força por algum dentista megalomaníaco que lhe pegará de surpresa assim que você adormecer no banco de um transporte coletivo. Não ria. É hora de cravar sobre seu rosto uma expressão imutável de tranquilidade. Os desesperados serão os primeiros a serem eliminados da superfície terrestre inundada pela água que deságua das geleiras descongeladas. Venda seu carro e compre um bote salva vidas. Logo mais você terá que remar contra toda essa maré de desesperança que corre pela nascente do Medo.

Abra os seus olhos.

quinta-feira, 12 de março de 2009

O Sol também se levanta - Hemingway

Considerado pela crítica norte-americana como o primeiro grande romance de Ernest Hemingway (mesmo ele tendo publicado, um ano antes, a novela The Torrents of Spring), O Sol também se levanta, de 1926, é um retrato fiel daquilo que ficou conhecido como Geração Perdida (Lost Generation). O termo foi popularizado pelo próprio Hemingway, que buscava caracterizar uma parcela da população americana que se mostrava descrente quanto ao seu futuro logo após a Primeira Guerra Mundial.

A trama é narrada e vivenciada por Jake Barnes, um veterano de guerra que voltara dos campos de batalha impotente, em todos os sentidos. Como um anti-herói americano, o personagem vive exilado em Paris trabalhando como jornalista. Seu círculo de amizades compreende estereótipos complexos e obsoletos. É apaixonado por Lady Brett Ashley, uma mulher aparentemente distinta, mas que mantém uma série de relacionamentos pouco duradouros com os homens. Embora compartilhem o mesmo amor, Jake e Brett não vêem um futuro promissor em função da desfuncionalidade sexual do protagonista.

Logo no primeiro capítulo do livro, Jake apresenta um de seus amigos mais íntimos, o ex-boxeador e escritor Robert Cohn, de quem desconfia todo o tempo sob a justificativa: “Nunca se deve confiar em pessoas francas e simples, principalmente quando suas histórias são coerentes”. Os verdadeiros relacionamento de Jake, no entanto, são mantidos com Bill Gordon (também escritor e veterano de guerra) e Mike Campbell, escocês, noivo de Brett, e ex-milionário.

Apaixonado por touradas, o protagonista convida os demais personagens para a Fiesta, um festival de touros que acontece anualmente na cidade de Pamplona, na Espanha. Durante a semana em que deixam Paris, Jake, Bill, Brett, Mike e Cohn mergulham com tudo na descrença marcante da Geração Perdida. De bar em bar, os personagens passam todo o dia bebendo vinho, cerveja, chope e absinto. O assunto nas mesas raramente vai além das frivolidades do mundo.

O título O Sol também se levanta, a princípio, reflete bem o comportamento dos personagens: mesmo depois de todas as bebedeiras desenfreadas, todos eles sempre estão de pé quando o sol se anuncia. Porém, o nome foi dado ao livro tendo como base o versículo 5, do primeiro capítulo de Eclesiastes na Bíblia, expresso nas seguintes palavras: “O sol nasce, e o sol se põe, e corre de volta ao seu lugar donde nasce.” A apropriação de Hemingway não faz muito sentido até que se leia a passagem anterior: “Uma geração vai-se, e outra vem, mas a terra permanece para sempre”. Isso reforça a crença de que o autor buscava caracterizar e retratar o sentimento comum que vigorava unicamente naquele determinado período de tempo, sabendo de sua efemeridade e volatilidade.


Contexto Histórico

Pós guerra:
Durante o período entre guerras (1918 a 1939), era possível encontrar grandes nomes da literatura norte-americana expatriados morando em diferentes pontos da Europa. Só em Paris, além de Hemingway, vivia Henry Miller, F. Scott Fitzgerald e T. S. Eliot. Também não era difícil esbarrar com jovens artistas europeus nos bares da cidade, a começar por Miró, Matisse e Renoir.

Toda a efervescência cultural da Belle Èpoque, que acabou com o começo da Primeira Guerra, deu lugar a uma vastidão de poetas, escritores e artistas marginalizados, sobretudo pela descrença iminente com a perda do nacionalismo vigente durante o conflito mundial. O resultado foi a tal Geração Perdida e a proliferação da figura do anti-herói, definição perfeita para o artista bêbado que angariava dinheiro vendendo suas náuseas e insatisfações para seus semelhantes.

O Sol também se levanta, assim como os outros romances malevolentes da época, viria influenciar diretamente na produção cultural norte-americana das décadas seguintes. A Geração Beat dos anos 40 e 50, protagonizada por Jack Kerouac, Willian Burroughs e Allen Ginsberg, seria uma nítida extensão do sentimento avassalador da Geração Perdida. Também não é difícil encontrar semelhanças na escrita do jornalista Hunter S. Thompson, tão fã de Hemingway que se matou exatamente como ele: um belo tiro na cabeça.

Lei Seca Americana:
Em contraposto à Lei Seca que estava em vigor nos Estados Unidos desde 1920, os personagens de O Sol também se levanta não ficam sequer um dia sem uma garrafa de cerveja. No capítulo XI, Jake ainda satiriza a situação da constituição americana: “Bebida lá é o que não falta, se se tem com que pagar”. O álcool parece tentar suprir a carência mental dos personagens, qualquer infortúnio surgido no cotidiano era rapidamente sanado por um copo cheio de vinho. A trama acaba, involuntariamente, girando em torno dos bares e restaurantes freqüentados por Jake.

Feito um diário de bordo, o protagonista descreve sua rotina alcoólica sem esquecer o nome de nem um único boteco. Ou seja: se um dia você decidir conhecer a capital francesa, não se esqueça de levar o livro para completar o guia descrito por Hemingway.

Personagens

Jake Barnes:
Retrato perfeito da figura do anti-herói: o personagem não possui nenhuma vocação heróica, mesmo tendo lutado por seu país na Primeira Guerra Mundial. Ferido durante o conflito, Jake se mostra conformado com sua impotência sexual como se não pudesse, de nenhuma forma, gozar dos amores do mundo. Isso comprova que sua impotência vai muito além de sua expressão física. Jake é um descrente, um ícone honroso da Geração Perdida e todos os seus dramas são passíveis de resolução quando tem um copo cheio de álcool na mesa.

Robert Cohn:
O paradoxo de Jake. Cohn é um dos personagens do livro que não se encaixa na Geração Perdida. Não bebe demais, não esteve na guerra e tem uma ânsia imensa pela vida. Quer ir para a América do Sul, mas não consegue companhia. É tremendamente apaixonado por Brett, mas não é correspondido. Robert Cohn é um ultra-romântico idiota perdido no meio de pessoas de aparências desinteressantes.

Mike Campbell:
Ex-milionário que mantém a vida de rico. Continua bebendo e viajando tanto quanto antes. Apesar de ser noivo e amar Brett, Mike se conforma com a postura de prostituta da amada. Mantém uma repulsa explícita por Robert Cohn, não por ciúmes, mas por natureza.

Lady Ashley ou Brett:
Apaixonante e viva. Ama Jake Barnes, mas prefere não tentar manter um relacionamento com um impotente. Em alguns trechos, inclusive, se apresenta como uma prostituta, mesmo não recebendo por seus ‘serviços’.

Bill Gordon:
Uma extensão do personagem Jake Barnes. Bill Gordon se torna cúmplice dos pensamentos do amigo desde o momento em que entra na história. Segundo o site de críticas norte-americano Cliffs Notes: “Bill foi colocado na trama para escutar os desabafos do protagonista. Apesar de narrar todos os acontecimentos, em determinados momentos, Jake não se sente confortável para ‘se abrir’ com o leitor. Nesses casos, Bill se torna o ouvinte ideal, que absorve tudo sem refutar nada”.

Ver também:

The Sun Also Rises (1957)
O livro de Hemingway foi levado ao cinema pelo diretor Henry King. As filmagens foram feitas na França e no México, em substituição às cenas que se passam na Espanha.
Clique aqui para ver um trecho.
E aqui para ler mais sobre o filme.

Para comprar:
Americanas: R$:34,90
Submarino: R$35,90

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Psicodália - Carnaval Psicodélico

As cores do site são tão vibrantes que parecem estar em movimento. Apesar dos tons flamejantes, os desenhos que descem pela página não parecem em nada com serpentinas e confetes. Na verdade, quem entra hoje no endereço virtual do Festival Psicodália, o carnaval mais psicodélico do Brasil, só encontra montanhas, cascatas, um sol escaldante, uma plantinha verde e algo que lembra um cogumelo.

Até alguns anos atrás, o mês de fevereiro era um tanto desinteressante para quem respira rock n’ roll e repudia os ritmos contemporâneos da Bahia (Axé!). Porém, na última década houve uma mobilização muito grande para criar alternativas ao Carnaval tradicional. Desse empenho e dedicação de alguns surtados, surgiram alguns dos mais respeitados festivais de rock do Brasil – Psychobilly Carnival, em Curitiba e o maravilhoso Psicodália, de São Martinho, em Santa Catarina.
.

Idealizado em 2004, o Psicodália ganhou sua primeira edição na cidade de Lapa, interior do Paraná. De lá para cá a proposta continuou a mesma: formentar a cultura local, divulgar o trabalho de novas bandas, estabelecer o contato entre diferentes expressões artísticas e promover dias incríveis enquanto o resto do Brasil explode ao som de Ivete Sangalo.

Nos cinco anos de festival, passaram pelos palcos do Psicodália nomes importantes da música nacional, como Sérgio Dias, do Mutantes, e Casa das Máquinas, uma das bandas de rock mais respeitadas do Brasil. Neste ano, a programação de shows conta com 24 grupos, isso além das oficinas de pinturas, teatro e circo. O festival começa na sexta-feira, 20 de fevereiro, e vai até o dia 24.

Abaixo você confere um documentário produzido sobre o Psicodália, sob direção de Rodrigo Cook. As cenas foram filmadas na edição de 2007 e traduzem bem a sensação de participar do festival.




SERVIÇO
Festival Psicodália

Quando: 20 a 24 de fevereiro
Onde: Chácara Recanto da Natureza, São Martinho/SC (Cerca de 140km ao sul de Florianópolis)
Quanto: 3º Lote: R$80,00
Mais informações:
http://www.psicodalia.mus.br/

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Uma Espécie em Extinção

Fico pensando em como o jornalista Hunter Thompson costuma ser lembrado nas faculdades de Comunicação do país - Um viajante alucinado que fracassou em suas investidas em gozar do tão proclamado "Sonho Americano", o tal bem-estar-social amplamente difundido nos gadgets norte-americanos que eram exportados pelo mundo. Teve então de mergulhar nas drogas para encontrar a Terra Prometida, queria as respostas que não estavam nas igrejas protestantes que continuavam se multiplicando pelo país. Ele estava lá nos anos 60, a era hippie fervilhando de energia e poder, os "smiles" correndo pelas ruas para representar um falso positivismo criado pelo governo. Os Estados Unidos estavam em guerra contra o Vietnã e qualquer manifestação contrária às ações armadas não eram bem vindas - o território americano, então, cedia espaço para as torturas e ameaças verbais, uma versão estrangeira dos porões da Ditadura Militar que avassalava os ideais estudantis do Brasil. Ao contrário do que se vê dentro das salas de aula, Hunter não deveria ser lembrado somente por sua escrita ácida e pela criação do Gonzo Jornalismo - Sua maior conquista, na verdade, pode ter sido sobreviver àqueles anos com uma máquina de escrever em pleno funcionamento.

Uma espécie em extinção é dividido em duas datas: 1969 e 1972. A história gira em torno de Carl Lazlo (Peter Boyle), pseudônimo utilizado para representar Oscar Zeta Acosta, o advogado mexicano que acompanhava as viagens de Hunter Thompson (Bill Murray). Acosta era ativista do Movimento Chicano, ou El Movimento, que pregava a discriminação dos imigrantes do México nos Estados Unidos. A luta durou exatos dez anos, tendo início em 1965. O advogado aparece em quase todas as obras de Thompson, à começar por seu mais famoso livro, o Medo e Delírio em Las Vegas, de 1971. A história foi adaptada para o cinema em 1994, por Terry Giglian, trazendo Benicio del Toro no papel de Oscar Zeta Acosta e Johnny Depp, representando Hunter.

Na primeira parte de Uma espécie em extinção, Hunter Thompson acompanha o trabalho diário de Acosta para uma matéria de capa encomendada pela Rolling Stone (No filme, a revista é apresentada como "Blast Magazine"). O advogado ainda não está envolvido com El Movimento e seu trabalho consiste em impedir que jovens delinquentes caiam na cadeia. Em um segundo momento, Hunter abandona a pauta de cobrir a final do Campeonato de Futebol Americano (Superbowl) para acompanhar as últimas atividades de Acosta (o Movimento Chicano) . O jornalista acaba desistindo de se filiar ao movimento revolucionário e passa a fazer parte da campanha presidencial de Richard Nixon, acompanhando suas viagens nos aviões dedicados à imprensa. Entre uma decolagem e outra, Hunter dá a sorte de esbarrar com o futuro presidente no banheiro, aproveitando para uma conversa memorável, publicada também em seu livro A grande caçada aos tubarões, de 1972.

Embora seja comercializado como uma Comédia, Uma espécie em extinção reflete todo o drama de um país que transpirava Liberdade sem ser livre. As gargalhadas devem ficar restritas aos jornalistas que julgam Hunter Thompson por suas andanças alucinadas em Las Vegas. Aos que conhecem a fundo os seus anseios e pensamentos - que motivaram seu suicídio, em 2005 - o filme deve cair como mais uma peça para o entendimento da cultura norte-americana daqueles anos. De quebra, ainda dá para se satisfazer com uma trilha sonora impecável que vai desde Neil Young até Creedance, passando ainda por Bill Murray cantando Lucy in the sky with diamonds. Bem sugestivo, não?


Assista ao trailer

-------------------------------------------------------------------------------
Para comprar:
Submarino: R$22,90
-------------------------------------------------------------------------------